No Natal, sou despudoradamente feliz (por Bruno Astuto)
Tenho um problema muito sério com o Natal — amo essa data. Adoraria ser amargo e intelectual, dizer que o Natal virou uma festa pagã em que só se pensa em comer e dar presentes, que Papai Noel é uma imposição imperialista, mas fato é que gosto de tudo isso, sem um pingo de vergonha. Acho incrível reunir a família — mesmo que por imposição — e, se a ceia terminar em lágrimas, acontece: quem disse que é preciso ser feliz o tempo inteiro?
Muita gente argumenta que a saudade dos entes queridos que já se foram aumenta nessa época do ano, portanto o Natal seria uma festa triste, de ausências. Vamos tentar enxergar por outro lado: com o corre-corre das nossas vidas, quando é que temos tempo de pensar neles, de evocar sua lembrança? De vez em quando, me pego culpado por não pensar tanto em minha avó maravilhosa, que passava o mês inteiro preparando os coscolovi (doces natalinos italianos) para nós, nos meus pais, que ralaram tanto para me passar o mínimo de educação, nos amigos maravilhosos que nos deixaram tão precocemente. Eles merecem a homenagem do nosso pensamento e dos nossos olhos úmidos.
No Natal, sou despudoradamente feliz, e poucas coisas me dão mais alegria do que sair à procura de lembrancinhas para as pessoas de que eu gosto — só adoraria ser mais precavido e começar as compras em março, quando os shoppings não estão lotados. Nos embrulhos, coloco cartões que preparo com duas semanas de antecedência. Tento dizer tudo aquilo que não consegui dizer ao longo do ano, o quanto as pessoas são importantes e o que elas representam para mim, e agradeço o carinho e a paciência da convivência. E sou incapaz de abrir um presente que não venha com cartão; é o embrulho que acompanha as palavras, não o contrário.
Muita gente diz que aquela orgia alimentar que daria para matar a fome na África. E como presentear as crianças quando tantas não ganham nada? É bom, sim, com tantos presentes na árvore, fazer uma faxina geral nos armários e separar o que sobra para dar a quem não tem nada. Doar a um desconhecido, sem esperar retorno, agir como Papai Noel, que, francamente, passa o ano inteiro fabricando presentes sem receber nenhum. E, mesmo gordo, velho e tendo que se enfiar em chaminés todas as noites, ele é feliz e ri à toa. Fica a lição.
Não me joguem pedras, mas eu tenho que assumir que gosto de Natal, de pinheiros e enfeites, de presentes, daquelas comidas deliciosas, do ambiente religioso que se impõe mesmo aos ateus de pai e mãe. E da o-bri-ga-ção de estar em família. Nem sempre tenho tempo para ela, o que faz de mim uma pessoa eternamente culpada, portanto o Natal é uma excelente desculpa para estarmos todos juntos, falantes e cobrando maior presença uns dos outros — até o Natal seguinte, claro.
Virou chique declarar o ódio ao Natal. Quando divido com os outros minha alegria a respeito dessa época do ano, sou chamado de bobo, capitalista e naïf; sou tratado como um ET e até com um certo olhar de condescendência. Não me importa: faz tempos em que estou tentando me libertar das chiquerias da vida em busca de uma cafonice autêntica, simples e genuína.
Em busca da alegria que a gente tinha quando era criança e inocente e acreditava em família unida para sempre, na imortalidade das pessoas que a gente ama, na felicidade eterna e, por que não, em Papai Noel.